quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mini conto

Ele pára nu na frente do espelho e não imaginaa imensidão que o separa dela.
Vê seus olhos, seu sorriso, quer estar mais próximo. Ele está nu e cansado.
Na cadeira onde está sentado, enquanto acontece uma oficina de escrita,
duvida de si mesmo, sobre seus anseios literários, perde a referência do próprio
desejo e fica angustiado, repentinamente. Como se nada naquele instante se
pudesse alcançar. Nem as palavras que ele próprio espera dele, nem a mulher distante
que já não encontra há algum tempo.

Os temas da oficina o agradam, o fracasso, a espera sem objeto de espera, e
a escritura, como a única matéria pulsante, em vidas quase desesperadas?
Mas a escrita também pode ser outra coisa? Talvez se ela não estivesse tão
distante assim? Se talvez ela lhe dissesse que sentia saudades do tempo
em que estiveram juntos? Que ele não estava nu e sozinho, patético a
mirar um espelho. Mas ao contrário, estava sentado ao lado dela na oficina de
escrita no meio de uma tarde de vento, e que quando pudessem sair a rua,
veria seus cabelos esvoaçantes?
Ele não sabe.
Escreve pequenos textos como este:

O peso
sobre a pétala
no pousar de uma borboleta
(hoje) fere meus lábios de você.

Ela sorri para ele.
Qual será a verdadeira distância entre um homem nu, sozinho, e sua vontade?


....


Andrea Duarte, O.V, setembro de 2009.

hai kai

O peso
sobre a pétala
no pousar de uma borboleta
(hoje) fere meus lábios de você.

Andrea Duarte, O.V., setembro de 2009.

Fragmentos II

Ela esteve ausente. Era escuro. Algumas luzes num horizonte.
A sensação de quem desperta abruptamente e se sente cansado.
Como se o despertar não fosse desejado. Ali, num canto qualquer
do planeta, ela respira e não sabe o que pode fazer.
As sensações, era tudo o que tinha. Agarrava-se a elas com as mãos geladas. Eram duras.

.................

inspirado em Haroldo de Campos

Ela não.
ponturos luzentes
de quem
desperpetua e cansa.
como se des duo ar e ado
não fosse
Ali num qualquercanto
do planeta
expira e não sabe
As fazeções, o que poderia?
As mãos frias

Andrea Duarte, Oficinas VIDARBO, setembro de 2009.

Fragmentos

Fazer do feito
Um novo de novo
Fazer novo
Feito de novo
Defeito novo
Detono
Devo
De novo?

Brincando com o livro novo de capa branca e H.Qs “ teoria da poesia concreta”
Páginas terminadas em enta, entre a 13ª e a 15ª linha
Quarenta
Volume “no thanks”
Cinquenta
Contenção do todo na parte
Sessenta
Um aluno do instinto
Setenta
Vegetativo reacionário
Oitenta
Obra em reflexo
Noventa
Onde está a novidade?
Inventa

Tiro rápido
Atravessando a nuca
Escrita fina


Desdobrando a literatura
Para pendurar
Como um lençol no varal
Da tarde de sábado
Sentir o lençol úmido
Amornar-se ao sol

Por: Larisa Bandeira, Oficinas VIDARBO, setembro de 2009

Oficinas Vidarbo

Caio e Fante
Se encontram na ambiência cinza do texto
Lugar onde levam as palavras
Caio planta girassóis
Fante imóvel espera
Balançar a taça
Beber o vinho
Para embeber-se (não embebedar-se)
Embriagar-se
Correr o risco
Caio
Em Fante
A felicidade perseguida
Infante escreve
Ele não é gigante
Ele não é
Caio inconstante
Fragmentário cinza
Adentrado ruminante
No parapeito da janela/um nó

Por: Larisa Bandeira

Mise en abyme. Espelho. Reflexidade

Tinhas olhos parados, emudecidos pelo tempo. Tempo de espera, da espera do esperar. Ar. Isso que lhe faltava e que a fazia desejar morrer. Tempo de ausência, ausência de vida, porque a morte a ronda ou lhe penetra sugando seu ar. Exílio. Exílio de si, portas e janelas cerradas, penumbra, raio de luz que escapa da velha persiana. Só ele denuncia o corpo sobre a cama, ofegante, pulsante por necessitar dele.
Como naquele dia, naquela casa abandonada. Estava bem, queria brincar, queríamos aventura. Fazia tempo que não podia fazer nada, por isso logo topei a brincadeira. Ele! Nem me lembro bem, meio alto para sua idade, olhos às vezes mel, quando tempo para chuva e meio verde, quando céu azul. Eu! O de sempre, mas naquele dia, tinha vida.
Entramos. Casa escura, cheiro de mofo, guardados e poeira. Muita teia de aranha, mas também vestígios de quem passou por ali: espelhos quebrados, móveis antigos destruídos pelo tempo e pelos vorazes cupins. O chão rangia, parecia que havia mais pessoas por ali. Senti um pouco de medo do que podia encontrar, mas também do que voltava a sentir.
Andamos um pouco mais, escadaria. Subir ou não subir! Um, dois, três, quinze. Lá de cima era mais horripilante, se via com mais nitidez a poeira que desenhava passos pelo chão e as teias que cobriam os desenhos pelo alto. Ele começou a me faltar, quando de repente Ele grita: - se esconde!
Apavorada sem saber o que acontecia, corri um, dois cômodos até chegar num quarto, onde ali fiquei, parecia que ia morrer, precisava dele. Ali, pensava nos ensinamentos de mamãe – esperar, acalmar, respirar e esperar – mas já não estava adiantando. Sair, não conseguia. Tentando controlar, só acompanhava os ruídos da casa, os barulhos da rua para ver se alguém chegaria para me procurar.
Alguns gritos lá de fora. Parecia papai. Mas não conseguia responder. Ele entrou casa adentro, no silêncio da casa ouviu um respirar conhecido, seguiu-o até entrar no quarto penumbrado.
- Filha, vim te buscar!

Por Ana Paula Cruzel, Oficinas VIDARBO, setembro de 2009.

Por Roberto Garcia

e a avó tinha vindo a cavalo para fazer o parto. chovia A gosto, ano do cavalo de fogo. Presságio e um destino: um olhar que possuísse névoa.
Pouco espaço. 13 estandartes de sangue a (des) encontrarem-se por décadas. Subtraem-se três. Travessia:
Espaço 2. Muita amplidão e uma lareira ao centro que,como um espelho, expelia invernos. Que calores (a) guardaria ?
Um grande livro sonoro desfazia os silêncios após almoço e ficava estendido em sonhos com a sobremesa posta ao lado de alegrias e várias mãos.
Cruzei uma esquina e horizontalizei-me. Retornei e achei flores multicoloridas ao chão. Inebriado, o esquecimento produz belezas.
Sonoridades e ritmos exigem-me cada vez mais. Prostro-me num canto. Seu movimento: metálico.
Avizinhei-me de luz do amanhecer, e um cão acolhe minhas muitas súplicas. Sou atendido, prazer retoma seu percurso.
De quando em quando devo medir a vida. Fatalidade ? Tomo intensidades por companhia.
Emudeço - ensaio - brinco.


Paroxismos : uma ( per ) versão

ABECEDÁRIO: EDUCAÇÃO DA DIFERENÇA


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A invenção de Haroldo de Campos: ficção como fundação




Nos encontramos tão raramente, uma primeira vez em Paris há décadas, e foi para mim a revelação ("esse homem é um imenso poeta-pensador que sabe tudo, pensei logo, qual o segredo que ele detém?"), uma outra vez há alguns meses em São Paulo (...). Desde dezembro, estou mergulhado nas novas obras-primas que trouxe comigo, em particular Bere'shith: A Cena da Origem - onde entre outros tantos tesouros encontro as palavras que melhor descrevam talvez a forma do gênio haroldodecamposiano em sua fulgurância poético-pensante: "O Palimpsesto Proliferante", "Hibridização Generalizada", "Intertextualidade", "Um Multicanto Paralelo" e para citar outros dois amigos: "saber com sabor".


Jacques Derrida

Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. Parecia que todo mundo estava fazendo jogos de palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados excelentes escritores. O que escreviam era uma mistura de sutileza, técnica e forma, e era lido, ensiando, ingerido e passado adiante. Era uma tramóia confortável, uma Cultura-de-Palavra muito elegante e cuidadosa.

Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava?

Então um dia puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entralaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.

Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia muito antes de terminar que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao pó e o autor era John Fante.

Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher. Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e frequentemente eu berrava para ela: "Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo bandini!"

Fante foi meu deus e eu sabia que os deuses deviam ser deixados em paz, a gente não batia em suas portas. No entanto, eu gostava de adivinhar onde ele teria morado em Angel's Flight e achava possível que ainda morasse lá. Quase todo dia eu passava por lá e pensava: é esta a janela pela qual Camilla se arrastou? É aquela a porta do hotel? É aquele saguão? Nunca fiquei sabendo...

(Charles Bukowski, prefácio a Pergunte ao pó).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Antelóquio: VIDARBO - Profª Sandra M.C. - PRINCÍPIOS DAS OFICINAS DE ESCRITURA VIDARBO, 18 e 19 SETEMBRO 2009


Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Faculdade de Educação
Programa de Pós-Graduação em Educação
Linha de Pesquisa: Filosofia da diferença e educação
Área temática: Fantasias de crítica-escrileitura
– Curso de Extensão –
Oficinas de Escritura VidArbo (OEVI)
Coordenadora/Professora: Sandra Mara Corazza
Período letivo: 2009/2
Carga horária: 20h-a
Horário: 6ª feira, 18, sábado, 19/09/09
Porto Alegre, PPGEDU/FACED/UFRGS, sala 703.
– ANTELÓQUIO: VIDARBO –
18 setembro 2009, 18h

Princípios das OEVI

1. A linguagem não é mero instrumento do humano; ela o constitui.
2. As línguas carregam uma história, trazendo marcas de usos anteriores. Essa carga do passado entrava a renovação do mundo, as mudanças na história do humano, a criação.
3. Não basta usar a linguagem para comunicar sentidos novos.
4. É preciso trabalhar as suas formas, libertá-la do que ela tem de completude reconfortante, de assertivo, de certezas, sistema fechado, egotismo, estereótipos, arcaísmos, conservadorismo.
5. Nenhuma língua é transparente ou inocente; e as que assim se apresentam são as mais aliciadoras.
6. A escritura desenvolvida pelas OEVI – ou escrita literária e poética – é prática que permite o autoconhecimento e a autocrítica da linguagem, assim como a sua abertura ao ainda não dito e não pensado.
7. A libertação da linguagem – por meio da escritura das OEVI – não é alcançada por espontaneísmo.
8. Contrariamente aos defensores da Criatividade Solta ou do Vale Tudo, as OEVI entendem o espontâneo como o campo do já-dito e do já-pensado; logo, como um domínio dos clichês, lugares-comuns e idéias feitas.
9. A liberdade de linguagem, para as OEVI, supõe escolha e crítica.
10. Mesmo ao contestar os discursos do cientista e do acadêmico, a escritura das OEVI não dispensa as regras do trabalho científico e acadêmico; embora os deforme.
11. O trabalho de linguagem – efetivado pela escritura das OEVI – tende para a isenção dos sentidos; o que nos leva à percepção do Rumor da Língua.
12. O Rumor da Língua remete a não-sentidos, que permitem ouvir e produzir os novos sentidos.
13. Essa empresa de libertação e renovação da linguagem desenvolve-se entre dois pólos perigosos: a ilegibilidade e a besteira (a bobagem, a tolice, a idiotice).
14. A escritura das OEVI ataca a ilegibilidade e a besteira, transformando-as em objetos de análise e reescrita.
15. Assim, as OEVI funcionam para: (a) dissolver as imagens; (b) promover a circulação da palavra; (c) garantir a multiplicidade do desejo de escrever; (d) dar leveza às enunciações, o que desbarata os papéis prefixados da comédia discursiva.

Antes que alguém pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, soprei fortemente o pó. Flutuou por instantes no ar, depois espalhou-se sobre os móveis, pelos cantos, pelas quinas. Dissipar a névoa, sim, talvez fosse esse o meu sentido. Mas se era realmente assim, não compreendia por que, como a noite então, uma grande tristeza, neblina, começou a descer sobre mim. Eu não tinha passado algum antes do caminho de hibiliscos, os cães recomeçaram a uivar, eu só queria iluminá-los, a cozinha estava muito suja, não havia futuro. Minha vida me doía fundo sangrada sem saída. Tudo o que eu precisava era o sol quente da manhã seguinte que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as mãos e comecei a chorar.


[Triângulo das Águas, Caio F. Abreu]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A invenção de Haroldo de Campos: ficção como fundação

19 DE SETEMBRO (8:30)
GABRIEL SAUSEN FEIL & MARCOS DA ROCHA OLIVEIRA





e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro
e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser a escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do começo eco do eco de um
comêço em eco no soco de um comêço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da
estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravila de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala







Passara dias com o dinheiro sujo que me deram pela venda imposta do jornal. Para mim já não havia nem haveria Santa María reconstruída nem El Liberal. Tudo estava morto, incinerado e perdido sobre o rio, sobre o nada. Jantava com os amigos, me embriagava com eles, me isolava dias a fio em meu apartamento. Sempre o dinheiro sujo no bolso, sem nunca diminuir, sem que eu nunca gastasse uma suja peseta dele. Às vezes passava fome ou tinha preguiça de me mexer para comer; às vezes deixava as horas passarem, do bulício sem sentido das madrugadas até a noite, jogado na cama, repetindo meu nome sílaba por sílaba, olhando o retrato de María José que passava, regular, de um dos bolsos à mesinha-de-cabeceira, e voltava pelas manhãs. Só durante as insônias me permitia saber que não era feliz e que sentia saudades. Em meu planisfério, vinte centímetros separavam Santa María de Madri.

(Juan Carlos Onetti, Presencia)


Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares em minha carteira. Dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:

"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"

Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.

(John Fante, Sonhos de Bunker Hill)