segunda-feira, 8 de março de 2010

Sol-adulto e sombra-infantil


Sol-adulto e sombra-infantil:reversão de uma ilusão
Sandra Mara Corazza
Num canto agradável e pacífico do Reino do Norte, em seu Marco Ocidental, viviam o Grande Platsóska - diminutivo de Platsóskhorov - e os Pequenos Dêlnietski e Aristovitch. Em um domingo lindaço de sol quente, Aristovitch preparava-se para ir à missa - já que seguiria a missão sacerdotal, por determinação de Platsóska, que a idealizara para si e não cumprira -, enquanto Dêlnietski fugia de casa, pulando a janela. Correndo, Dêlnietski afastou-se do povoado, seguindo por uma estrada velha, às vezes bloqueada por pedras caídas da montanha. Enquanto um vento forte provocava redemoinhos, atravessou uma charneca e mergulhou numa densa neblina, que lhe fazia os cabelos cair gotejando sobre a testa. Entrou numa trilha estreita e acidentada, que ladeava um abismo de escuridão, no qual a terra caía para dentro de um precipício, e meteu-se por um túnel arruinado. Uma vez transposta a abertura, tudo era silêncio, a não ser pelo sussurro do ar. Começou a descer, enquanto o frio e a umidade aumentavam e uma sombra densa jazia a seus pés. Respirou fundo e desceu ainda mais em direção à sombra. No meio dela, viu a abertura de uma caverna e começou a ouvir vozes e cantos. A caverna era alta e ampla, e ali viviam amigos seus.Dêlnietski foi alegremente acolhido e festejado. Com os amigos, começou a se preparar para ir ao sabá. No corpo, passou ungüentos feitos com sangue e gordura de recém-nascidos, na alma, alimentou o desejo de ir junto. Quando a noite desceu, voou para a floresta mais escura, montado na garupa dum bode preto, enquanto os seus amigos voavam em bastões ou vassouras, ou transformados eles próprios em bichos. Como era a sua primeira vez, renunciaria à fé cristã, profanaria os sacramentos e renderia homenagem ao Diabo, presente sob a forma humana ou semi-animal. Participaria, depois, do banquete e das danças, das cerimônias antropofágicas e das orgias sexuais.De sobrevivência e honraEle sabia que somente passando a linha da janela, escaparia de representar, para Platsóska, uma Imagem Imprópria, uma Cópia Mutante ou um Simulacro Degradado. Dêlnietski previra que, embora o Grande não acreditasse que pudesse conhecer verdadeiramente o Pequeno, a sua imensa vontade de inteligível faria de tudo para que o pensamento vindouro - mesmo, inicialmente, contendo opiniões, conjecturas e crenças - o transformasse em uma idéia de Infantil-Adulto a ser verdadeiramente conhecida. Ele sabia que fugir de casa era uma questão de sobrevivência. Inclusive, sabia que curto-circuitar o projeto de Platsóska, em manter a superioridade do Adulto sobre o Infantil, era uma questão de honra a sua própria Vida Infantil. Uma vez que Platsóska era viciado em promover hierarquias, pela via da Semelhança, e, por isto, teimava em distinguir Essência de Aparência, Inteligível de Sensível, Original de Cópia, Idéia de Imagem, Modelo de Simulacro. Claro, que, nesse tipo de dualidade, explicitamente manifesto e assumido por Platsóska, tudo o que vinha em primeiro lugar eram os excelentes atributos e qualidades do Ser-Adulto, e tudo o que vinha em segundo caracterizava o apoucado e inexato Ser-Infantil. Da cizâniaTodos os Seres estariam e permaneceriam, tranqüilamente, nesses legítimos lugares, se a vontade seletiva de Platsóska fosse apenas a de dividir o Mundo em dois: o Mundo-Adulto, das Essências e Modelos, e o Mundo-Infantil, das Aparências e Cópias. Porém, Dêlnietski via que a questão era ainda mais complicada quando Platsóska começava a dividir e a hierarquizar os próprios seres do Mundo-Adulto, com quem lhe tocava viver. Ou seja, ele defendia que existia uma Raça de Adultos que pensava, sim, os Infantis, mas, servindo-se de Figuras Adultas e partindo de Hipóteses Adultas, não para chegar a um Princípio Verdadeiramente Adulto, mas tão-somente a uma Conclusão, metida à Adulta, que não possuía nenhum caráter de necessidade lógica. Já a outra Raça dos Adultos de Pensamento Superior não recorria a nada que fosse Infantil, porque considerava isto um enorme obstáculo ao seu pensamento, que somente adquiria a incontestável inteligibilidade afastando-se totalmente do Infantil. Esses Adultos Superiores utilizavam as suas Hipóteses Adultas não como Princípios e sim como Pontos de Apoio para elevarem-se até o Princípio Não-Hipotético, até o Princípio Universal Adulto, objeto de sua maravilhosa e suprema intuição intelectual.Essa Dialética-Adulta cumpria duas funções: elevar-se até o Princípio Absoluto da Inteligibilidade Adulta, de maneira tão límpida, que não tivesse necessidade de quaisquer explicações; e, ao atingir tal Princípio, descer, para iluminar os níveis mais baixos, onde ficavam os Infantis. Por isso, Platsóska promovia, permanentemente, uma grande cizânia entre os Adultos, já que buscava aqueles que pensassem melhor, que ascendessem ao Princípio-Adulto, e que retornassem, com este Princípio nas mãos e cabeças, para melhor conhecer os Infantis-Adultos; enquanto dispensava aqueles Adultos que não pensavam do mesmo modo.Do perigo latenteEm função desses desdobramentos, no pensamento e nas relações dos Adultos, Dêlnietski - como um precoce, mas eficiente investigador - examinou outra distinção, que estava latente nos ditos de Platsóska, e viu que a sua mais importante façanha não era dividir, de modo superficial, embora manifesto, as pessoas, as coisas, o mundo entre Adultos e Infantis. Ao contrário, a mais eficaz de todas as suas divisões era a que filtrava, por sua Semelhança com os Adultos, e mesmo Moralmente, os Bons-Infantis e os Maus-Infantis.Justamente aqui é que morava o perigo! Porque, em termos de efeitos sociais, políticos e subjetivos para todos os Pequenos, não bastava que fosse abolida a distinção entre Ser-Adulto e Ser-Infantil. Já precursores de Dêlnietski tinham tentado tal abolição, visto que a dualidade manifesta de Platsóska remetia, claramente, a insuficiências e deficiências dos Infantis, a sua constituição deformada, carente, menorizada, imprópria, desastrada. E nada mudara para os Pequenos, pois, continuaram a ser Adultizados, pela dupla exigência do Mesmo-Adulto e do Semelhante-Infantil. Enquanto outros antecessores, mesmo que de maneira transcendental, também tinham buscado destruir essa dualidade, só que mantendo o Adulto como condição de possibilidade para que o Infantil aparecesse. O resultado foi o mesmo - um fracasso -, porque esta ação conservou todos os pressupostos subjetivos da recognição e do senso-comum Adultos, que acompanhavam as condições e o aparecimento do Infantil. Em ambas as ações, permaneceram as exigências da seleção e da exclusão dos Infantis Ex-cêntricos e Divergentes, bem como, a volúpia de destruir para conservar a ordem restabelecida das representações do Modelo-Adulto e da Cópia-Infantil.Isso fornecera a Dêlnietski elementos mais do que suficientes para concluir o quão insuficiente fora, até agora, definir tanto o Adulto quanto o Infantil pela distinção entre a Essência-Adulta e a Aparência-Infantil, já que esta distinção não chegava a realizar a perfeita separação entre o Modelo-Adulto e a Cópia-Infantil. O problema dos Pequenos perpetuava-se, visto que, para Platsóska, a Cópia não era uma simples Aparência porque mantinha com a Idéia-Adulta, considerada como Modelo, uma relação interior, espiritual, noética, de coisa em si, e também ontogenética. O que lhes interessava desmanchar era a divisão muitíssimo eficaz que Platsóska fazia, no domínio das Imagens-Infantis, entre as Cópias-Ícones e os Simulacros-Fantasmas, já que Ele somente opunha o Modelo-Adulto e a Cópia-Infantil para obter este critério mais operante de seleção. Os Infantis-Cópias, sendo fundados por suas boas relações de Semelhança com o Modelo-Adulto; e os Infantis-Simulacros, sendo desqualificados, por sua condição de más cópias deste Modelo: sempre submersos na Dessemelhança, sempre reprovados na Prova da Cópia e descumpridores da Exigência do Modelo.Ora, isso é o que Dêlnietski, apreensivo e preocupado, diagnosticara: que a cizânia entre os Adultos e os seus dois tipos de divisão, especialmente a latente, eram usados para distinguir os Infantis-Esplêndidos dos Infantis-Maléficos, que não tinham o mínimo respeito nem pelo Fundamento do Modelo-Adulto nem pelo Fundado da Cópia-Infantil. O Pequeno diagnosticara que daí é que vinham as práticas abomináveis dos Adultos de conjurar e exorcizar todos os Infantis-Fantasmas, de recalcá-los e mantê-los acorrentados aos Adultos, de impedi-los de subir à superfície do Planeta e insinuar-se por Terras e Almas: tudo isso para alimentar a sua insaciável vontade de submeter as Diferenças-Infantis à Identidade-Adulta.De sagacidade e astúciaAssim, a sagacidade das práticas distintivas de Platsóska impunha a grande dualidade manifesta entre Idéia-Adulta e Imagem-Infantil, apenas para assegurar a distinção latente entre as duas espécies de Infantis e fornecer aos Adultos um critério concreto e infalível de seleção. Critério que selecionava dois tipos de Infantis: os Bons-Infantis, Bem-Fundados-nos-Adultos, como Aristovitch, que funcionavam como seus Ícones, por se lhes assemelharem; e os Maus-Infantis, Mal-Fundados-nos-Adultos, como Dêlnietski, que eram perversos polimorfos e ousavam existir como Imagens-Infantis-Adultas, mesmo não se lhes assemelhando. Era por aqui, nessa estrada vicinal, que o esperto Platsóska levava o seu povo a distinguir entre a Cópia-Perfeita e o Simulacro-Imperfeito.Qual era o objetivo máximo de Platsóska? Para que agia desse modo? Ora, simplesmente, para que essa dualidade pudesse ser exercida ao nível dos próprios corpos infantis, dividindo-os entre as Cópias, medidos e limitados pela Idéia-Adulta, e os Simulacros, que eram um puro Devir-Infantil, sem nenhuma medida, que pretendiam ser Infantis, fugindo, sem passar pela Idéia-Adulta; que pareciam assemelhar-se aos Adultos, mas, faziam-se parecidos com Eles, graças à agressão a esta Idéia. Aquela distinção inicial, e ruidosamente manifesta, entre o Modelo-Adulto e a Cópia-Infantil só fazia sentido em função desta, mais soturna. Explicando melhor: se Dêlnietski tivesse ficado em casa e ido à missa, teria grandes chances de continuar sendo uma Cópia-Ícone, como Aristovitch, por manter com a Idéia-Adulta uma relação de Semelhança, que o fundava como Cópia-Adulta-Bem-Fundada. Claro que essa relação entre os Pequenos e o Adulto não era extrínseca, externa, exterior, pois, aqueles tinham os seus brinquedos, jogos, amigos, e Platsóska tinha o seu modo adulto de viver. A relação era intrínseca, indo menos de Aristovitch e Dêlnietski a Platsóska do que do Infantil à Idéia-Adulta, pois, esta é que compreendia as proporções constitutivas da Essência-Interna-do-Infantil-Adulto. O Infantil era conforme ao Fundamento ou Modelo-Adulto, na medida em que se modelava, interior e espiritualmente, sobre a Idéia-Adulta, e não merecia a qualidade de Infantil-Adulto, senão na medida em que se fundava sobre a Essência da Adultez. Era a Identidade-Superior-da-Idéia-Adulta, que encerrava o que constituía a Essência-do-Infantil-Adulto, e que fundava a Boa Pretensão da Cópia-Aristovitch sobre uma Semelhança-Interna ou Derivada; enquanto, a Pretensão do Simulacro-Dêlnietski era Mal Fundada, pois, recobria um Desemparelhamento e uma Dessemelhança, uma Semelhança Frouxa e um Desequilíbrio Interno. Desse modo, o crucial da divisão platsoskiana era a diferença de natureza entre Dêlnietski e Aristovitch, ou, o aspecto pelo qual eles formavam as duas metades dessa divisão. Os Infantis assemelhavam-se aos Adultos, na medida em que se assemelhavam à Idéia-do-Infantil-Adulto, e só se conformavam a esta Idéia porque possuíam a Adulta como Modelo. Pois, este Modelo é que gozava de uma Identidade Originária, uma vez que apenas o Adulto não era outra coisa a não ser o que Ele era; isto é, só o Adulto era Adulto, enquanto a Cópia-Infantil era julgada segundo uma Semelhança-Interior- Derivada. Esses dois tipos de Similitude definiam a relação entre o Adulto e o Infantil: a Similitude-Exemplar de um Adulto-Original, idêntico a si mesmo, e a Similitude-Imitativa de uma Cópia-Infantil, mais ou menos Semelhante ao Original.Então, novamente, a pergunta: onde residia a enorme astúcia desse processo de fundação da Representação? Certamente, não na determinação do Gênero Humano pela oposição entre a Espécie-Adulta e a Espécie-Infantil. A sua astúcia era selecionar Linhagens dentre os Infantis-Adultos, para distinguir o Autêntico do Inautêntico. Maliciosamente, Platsóska caçava a Verdadeira-Cópia-Infantil, Imagem dotada de Semelhança, a partir da Imagem sem Semelhança de um Material Impuro: o Simulacro-Infantil, a Cópia-de-Cópia, o Ícone-Degradado. Ao excluir e reprimir os Infantis-Sem-Semelhança, que escapavam da ação Adulta, fazia surgir a Idéia-de-Infantil-Adulto, a qual autenticava a Idéia-de-Adulto. Como ocorria essa caçada? Sem tréguas, nem piedade, por meio de uma Justa-Dialética entre Rivais e Pretendentes. Dos rivais e pretendentesAquilo a ser promovido, por meio dessa Justa selecionadora das Linhagens, era a Participação Eletiva dos Infantis, que fazia de Aristovitch e de Dêlnietski, Rivais, e, no mesmo lance, avaliava-os como Pretendentes à Idéia-Adulta. De que modo? Participar consistia em obter algo, o Objeto da Pretensão, que alguém possuía, em primeiro lugar; este que possuía dava aquele Objeto ao Pretendente, cuja Pretensão se achava bem ou mal fundada, e que se tornava um Possuidor em segundo, terceiro, n lugar, até um Pretendente Destruído, uma Miragem, uma Contrafação; claro que isso tudo acontecia, se o Pretendente conseguisse passar pela Prova do Fundamento. Evidente, que Platsóska era o Fundamento Seletivo, como Adulto-Idêntico, pois só Ele era Adulto e ninguém mais. Evidente, também, que Ele era o Modelo-Prova, conforme o qual os Pretendentes-Infantis deveriam ser julgados e sua Pretensão a Verdadeiro-Infantil-Adulto, medida. Ele encarnava o Imparticipável da Justa que, enquanto tal, concedia aos Infantis a preciosa oportunidade de passarem por sua Seleção, e de escolher se participariam ou não da Qualidade-Adulta, que apenas Ele possuía inteiramente.De modo resumido, o Método da Divisão era o seguinte: a Adultez de Platsóska, como Fundamento, Imparticipável; a Qualidade-de-Adulto, como Participado, Objeto-da-Pretensão; os Infantis-Adultos, como Pretendentes-Rivais, que participariam desigualmente da Adultez. Esse Método elegia os Pretendentes-Verdadeiros, os Verdadeiramente-Infantis, Bem-Fundados e Garantidos-pela-Semelhança, e encurralava os Pretendentes-Falsos, erigidos a partir de sua Dissimilitude e Desvios Essenciais. Ao invés de simplesmente subdividir, o Método selecionava, dentre todos os Falsos-Infantis, o Verdadeiro-Infantil-Adulto, o Sem-Mistura, o Puro-Sangue, o Ouro-Puro. Fazia isso, não formulando uma lei do Verdadeiro e do Falso-Infantil, mas, olhando acima de todos eles o Modelo-Adulto, de tal modo Puríssimo, que a Pureza daquele Infantil-Puro se assemelhasse a Ele, se aproximasse Dele e pudesse ser medida por Ele. Essa seleção era tão forte que não adiantava nem espernear, nem xingar, porque o Falso-Infantil-Adulto era, sumariamente, desclassificado como o Não-Ser-do-Simulacro-Infantil.Da potência positivaTalvez pudesse parecer, não fosse toda essa investigação de Dêlnietski, que Platsóska opunha o Sol-da-Verdade-Adulta às Sombras-da-Caverna-Infantil. Que nada! O que Platsóska realizava era uma triagem rigorosa, uma operação sutil, anterior à descoberta da Essência e da Verdade Adultas, visto que justamente as exigia, e que lhe possibilitava separar, no conjunto dos Infantis, os Maus-Simulacros das Boas-Cópias. Para reverter esse Sistema de Representação platsoskianiano, Dêlnietski descobrira ser totalmente inútil restituir os Direitos dos Infantis, dar-lhes solidez e sentido, aproximar as suas Aparências das Formas Essenciais dos Adultos, ou mesmo atribuir-lhes o Conceito de Adulto. Ao contrário, para subverter o Sistema, era preciso reconhecer a Potência Positiva dos Infantis, só ela capaz de destruir as categorias de Original-Adulto e de Cópia-Infantil. Era preciso estancar a relação de força entre Modelo e Simulacro, não permitindo mais que a Idéia-Adulta movimentasse os critérios capazes de excluir, barrar e rejeitar as Cópias-Infantis-Sem-Fundamento-no-Modelo-Adulto. Era preciso acabar de vez com essa noção de Modelo-Adulto, que não intervinha para se opor às Imagens-Infantis, mas para selecionar as Boas e eliminar as Más.Assim, o ato de Dêlnietski, ao montar numa vassoura de bruxa e ir para o sabá, ao invés de ficar em casa e ir para a missa, acontecera para que o platsoskianismo não expulsasse mais os Fantasmas-Infantis, ou fizesse deles Simples-Imitações, Semelhantes-Infinitamente-Diminuídos, Monstros e Figuras-do-Mal destinadas à expiação. Sabendo que não se tratava de virar a Pretensão do Pretendente-Infantil contra a Fonte-Adulta-da-Pretensão, Dêlnietski quis afirmar os Infantis como uma maquinaria não mais maldita, mas como uma Máquina Dionisíaca. Máquina potente, que, quando não é mais recalcada, vira a própria Coisa-Infantil, a própria Idéia-Infantil, o próprio Simulacro-Infantil, positiva e jubilosamente afirmado.Do devir-subversivo Por seu pecado, Dêlnietski e todos os Infantis que cruzaram a linha, a partir daquele domingo lindaço de sol quente, perderam a sua Semelhança com os Adultos, embora conservassem a Imagem-de-Infantis-Adultos. Eles perderam a Existência Moral de Cópia-Semelhante do Mesmo-Adulto, para entrarem na Existência Estética Demoníaca. Demoníaca, já que ainda produziam um efeito de Semelhança, mesmo que este efeito fosse de conjunto e exterior, construído por meios diferentes daqueles que se achavam em ação no Modelo-Adulto. Eles não podiam mais serem definidos com relação ao Modelo-Adulto-do-Mesmo, que era imposto às Cópias-Infantis e do qual derivava a sua Semelhança. Se ainda tinham um Modelo, era um outro, um Modelo-do-Outro-Infantil, do qual decorria a sua Dessemelhança-Interiorizada. A imitação que praticavam tomava, para os Adultos, o sentido enormemente pejorativo de Simulação, porque designava o efeito improdutivo de Semelhança, adquirido por seu ardil de pular a janela.Por que os efeitos desse Infantil-Simulacro eram considerados improdutivos? Porque tal Infantil implicava grandes dimensões, profundidades e distâncias que o Observador-Adulto não podia dominar. E, mesmo não dominando, Ele experimentava, ainda, uma impressão de Semelhança. Uma vez que o Simulacro-Infantil incluía, em si, o ponto de vista diferencial, o Observador era obrigado a fazer parte dele, que se transformava e se deformava com o seu ponto de vista. De modo que, nele, havia sempre um Devir-Louco, um Devir-Ilimitado, um Devir-Sempre-Outro, um Devir-Subversivo das profundidades, habilidoso para esquivar o Igual, o Limite, o Mesmo, o Semelhante. De modo que este Infantil era sempre Mais e Menos-Adulto, ao mesmo tempo, mas nunca Igual-a-Ele.De contágio e contaminaçãoSó assim, os Infantis-Simulacros conseguiriam pôr em questão e abolir as noções de Original e Derivado, bem como as desgraçadas relações de Semelhança estabelecidas entre Modelo e Cópia, de modo que nunca mais ninguém exultasse, ou fosse humilhado e sofresse, ao ser designado como O Original, ou A Cópia, ou O Fantasma. Só assim, os Infantis exterminariam as práticas de Produção e Reprodução que, necessariamente, reduziam a sua Diferença à Identidade-Adulta. E poderiam experimentar a forte positividade de fazer a sua própria Diferença, pensada nela mesma, sem quedar aprisionada no elemento de uma Diferença, já mediatizada pela Representação, submetida à Semelhança-Adulta. Talvez, quem sabe, daí, essa Potência Positiva da Máquina Dionisíaca dos Infantis contagiasse e contaminasse todos os Simulacros, fazendo-os criar coragem para também afirmar as suas Heterogeneidades, Divergências, Descentramentos, Dessimetrias, Desigualdades Constitutivas, levando-os a positivar as próprias Potências de Fantasmas e a fazer as suas próprias Diferenças, enquanto Semelhanças Abolidas. De maneira que não mais fosse possível impor um limite a seus Devires; que eles não mais fossem ordenados aos Mesmos, tornados Semelhantes; ou tivessem suas partes rebeldes encerradas em cavernas, nos fundos dos Oceanos. Então, por efeitos dessas subversões, os Infantis poderiam constituir com todos os Simulacros uma Legião-de-Diferentes, cujas Identidades fossem Potências Primeiras. Uma Legião, dos que seriam e se fariam Diferentes em si mesmos, e que não mais fossem Impensáveis, ou Subordinados aos privilégios da Identidade e da Semelhança. Legião, dos que nunca mais aceitariam um ponto de vista privilegiado, hierarquias, seleções, ordem das participações, semelhanças a serem julgadas.Como a mais alta potência do Falso, todos os Simulacros potencializariam uma eterna vertigem das representações. Subindo, em bando, à superfície das cavernas, pisoteariam o Mesmo e o Semelhante. Promovendo a Feitiçaria dos Falsos, assegurariam um desabamento universal de todos os Fundamentos, Fundações, Fundos, e encontrariam, sob eles, os subsolos mais ricos, as cavernas mais vastas, os subterrâneos mais estranhos. Fazendo cintilar suas máscaras sobrepostas a intermináveis máscaras, instaurariam distribuições nômades.Até que, lá, no sabá, e em vários outros lugares, deste mundão novo sem porteiras, eternamente, retornasse tudo outra vez. Tudo não, mas, o que fazia a Diferença desse mundão, deslocava as suas Diferenças com todas as outras, e as complicava no caos, sem começo nem fim. Até que começasse, de modo diferente, todos os procedimentos seletivos que se opunham à antiga seleção: os que forneciam um Modelo, faziam uma Cópia, corrigiam as Divergências. Até que retornasse o caos afirmativamente superior, que cria, esquece o Sol, põe em marcha as Sombras, ergue os Fantasmas, celebra as Ilusões, e faz triunfar os Simulacros.BibliografiaCORAZZA, S.M. Inferno & educação: Nietzsche, Deleuze e outros malditos afins. BH: Autêntica, 2002. (No prelo.) DELEUZE, G. Diferença e repetição. RJ: Graal, 1988.FOUCAULT, M., DELEUZE G. Theatrum philosophicum seguido de Repetición y diferencia. Barcelona: Anagrama, 1995.MACHADO, R. Deleuze e a filosofia. RJ: Graal, 1990.